Minha irmã tirou carteira de motorista recentemente e nós estamos nos revezando para treiná-la na direção antes dela pegar o carro sozinha — meus pais fizeram isso comigo oito anos atrás, quando tirei carteira, e agora estamos fazendo o mesmo com ela. Não sei se vocês já tiraram carteira, mas as aulas da auto-escola servem basicamente para te fazer passar na prova. Mas andar no trânsito não é algo fácil, porque tem vários imprevistos e a maior parte das coisas que você precisa fazer vem de confiança, vem de costume, vem de ~sentir~ o motor do carro. Nesses dias, eu me pego repetindo várias vezes para a minha irmã: “O carro é que nem um animalzinho, sabe? Você precisa sentir o motor para saber qual marcha passar, precisa colocar ele dentro da sua noção espacial ou você vai acabar machucando ele e você mesmo”. A melhor maneira de aprender a dirigir é praticando, e depois que você pega o jeito, é que nem andar de bicicleta: você consegue fazer em qualquer situação.

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Durante todo esse processo eu comecei a refletir sobre as semelhanças desse processo com escrever. Você pode ter aulas, dominar a técnica perfeitamente e saber tudo o que precisa fazer para ter uma boa história, mas se você não pratica, se você não vai para a rua, você não pega o jeito. Escrever é prática, e assim como na direção, existem milhões de imprevistos dos quais você se sai melhor se tiver confiança e souber o que está fazendo. A história é como um animalzinho, você precisa sentir o enredo para saber quando mudar a marcha, precisa alinhar ela dentro da sua visão pessoal do que te diverte, do que faz sentido para você.

E, assim como com dirigir, cada pessoa dirige de um jeito, com suas próprias manias. Cada escritor tem um funcionamento diferente, sejam rituais antes de escrever, seja a maneira que escreve. E a melhor maneira de saber qual é a sua mania é testando vários métodos até descobrir qual o que combina com você. Além disso cada carro — cada história — exige que você se acostume com ele para poder dirigí-lo. Alguns tem a embreagem lá em cima, outros são muito acelerados, outros tem o volante muito duro. Você precisa conhecer o carro — e sua história — para poder usá-lo da melhor maneira.

A diferença principal, é claro, é que você pode matar uma pessoa com um carro, enquanto nas histórias apenas pessoas ficcionais sofrem.

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Bem, ultimamente tenho pensado muito nisso, sabe? Na parte técnica, de como as pessoas fazem histórias e as contam, não importa o meio. Em como a maior parte dos autores melhoram ao longo do tempo, e observando as exceções (cof cof – Richelle Mead – cof cof), tentando entender o que me faz gostar de histórias e que tipo de narrativas quero construir a partir de agora, depois da Trilogia Anômalos. O projeto que estou trabalhando também tem me ajudado muito nesse sentido, porque ele é um grande desafio que está me ajudando a crescer como escritora. Não posso falar muito sobre isso, só que quando vocês descobrirem o que é, vão entender, ahaha.

Nas minhas tentativas de arrumar o melhor tom para a história, de conhecer melhor esse carro que decidi comprar e dirigir, percebi algo: meu processo criativo começa pelo enredo ou pelo mundo. A situação e o cenário são fundamentais para que eu possa construir os personagens que vão habitar esse mundo e dar voz ao enredo, com as características que acho interessantes para tornar a história mais dinâmica. É como se saber o cenário ou o que vai acontecer abrisse minha mente para que as pessoas surgissem. Se eu não sinto que a história é consistente ou que o mundo tem alguma falha, não consigo avançar, por mais que os personagens pareçam incríveis e eu goste muito deles.

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Nem todo escritor é assim. A Iris Figueiredo, por exemplo, geralmente começa dos personagens e depois vai criando o enredo e vendo como eles reagem às situações. Alguns escritores começam com uma grande ideia (digamos, uma pessoa que viaja entre dimensões e tem um casaco mágico) e daí desenvolvem todo o resto — outros começam com um mundo, outros com uma hipótese…

Também acho que, para algumas pessoas, esse processo criativo depende muito da história e do gênero em que vão escrever. Com certeza tem gente que transita muito bem entre as maneiras – algumas histórias começam com personagens, algumas com uma ideia de enredo, algumas com o mundo – mas eu descobri que, ao contrário do que eu pensava, não sou uma delas. E como descobri isso?

Tentativa e erro.

Surta

Surta

Confesso que é um método meio frustrante, mas não acho que há uma maneira mais direta de descobrir. Não sei se vou mudar, se é só uma fase, ou se é assim todas as vezes mas, refletindo sobre todas as ideias que tenho aqui, todos os projetos que estão alinhados para serem escritos, nenhum deles começou com personagem.  Por outro lado, isso não significa que não ache personagens importantes — muito pelo contrário, eu acho que eles são a alma e o coração de uma história e precisam ser muito elaborados. Mas é como se eu precisasse do esqueleto antes de vir com os músculos, os órgãos e a pele da história, sabe?

 

E vocês? Já refletiram sobre a origem das suas ideias? De como vocês começam a imaginar uma história?