Diário de escrita RELOADED #3

Muito se fala daquele temível inimigo dos escritores, o tal do WRITER’S BLOCK ou BLOQUEIO CRIATIVO ou seja lá como vocês chamam.

Imagens reais dos meus últimos dias

Eu não acredito que aconteça por falta de inspiração (falei sobre isso aqui). Não acredito que a fonte da criatividade, sei lá, tenha secado e você esteja impedido de escrever porque a SUA MUSA TE ABANDONOU. Sou muito analítica e racional em diversas partes do meu processo criativo e uma delas é essa: para mim, se a escrita não flui, é porque tem algo errado na história.

Claro que demorei bastante para entender isso. Quando eu era adolescente, só pulava de história para história inacabada, deixando as coisas pelas metades, sabendo que eu amava os personagens, enredos e mundos que havia escrito, mas incapaz de continuar. Era uma válvula de escape, ir para as minhas outras ideias, uma forma fácil de escapar da história problemática à minha frente. Foi só quando eu determinei que eu IRIA TERMINAR ALGO que comecei a perceber os padrões de fuga, perceber como muitas vezes eu me refugiava em outra história para não ter que desembaraçar o enredo da que eu tinha me proposto a escrever.

Socorro

Vocês já repararam como a maior parte das palavras relacionadas à contar histórias vem de palavras relacionadas à tecido? Enredo. Trama. Teia. Contar uma história é o ato de pegar diversos fios e dar-lhes uma nova forma, é tecer personagem, cenário e acontecimento num tecido que é uma padronagem única. Com os mesmos fios, outra pessoa faria algo completamente diferente. E, como todo trabalho “manual”, às vezes você acha que um fio vai ficar bom num lugar e, depois que faz, descobre que não.

Tem vezes que você só descobre isso quando está no meio do tecido e não entende porque o fio azul acabou antes de todos os outros e você não consegue mais continuar e tem que desfazer tudo e voltar e descobrir onde foi que você fez errado, qual calculo deu errado*?

Histórias são assim, para mim. Quando elas não fluem, é porquê algum fiozinho entrou no lugar errado. É muito mais fácil deixar de lado e ir fazer outra coisa quando isso acontece, porque, olha só o trabalho. É necessário parar, ver a história como você quer que ela seja, a história como você está escrevendo, analisar fio a fio para tentar entender o que está errado. Às vezes foi o material do fio que você escolheu, lá no início. Essas são as mais difíceis de arrumar. Algumas vezes, você só não está “ouvindo” os personagens direito — ou seja, você criou os arquétipos, mas não está dando espaço para eles respirarem nas páginas e a escrita está ficando engessada.

ONDE FUI ME METER???

Como eu sei que tem algo errado? Vai lá, a gente já tá íntimo o suficiente pra você não me achar maluca: os personagens tem “vozes” e dão dicas. É claro que, se a gente tiver uma abordagem científica, é a forma que eu personalizo minha intuição ou meu subconsciente ou seja lá o que for, mas é isso. E como eu fico muito tempo com eles, cada um deles tem um padrão. Tem personagens mais barulhentos e espalhafatosos — é o caso da protagonista de Starships, se o problema é com ela, eu sei na HORA –, outros são mais orgulhosos e me deixam avançar, mas com aquele feeling de “olha, eu não faria isso, mas tudo bem, você que tá escrevendo, né”. E, nesses casos, a gente precisa fazer coisas assim:

E tem aqueles que é o caso mais grave: os que ficam sofrendo calados, no canto deles, porque, bem, já tem tanta gente incomodando, não vou ser mais um, né? Então é muito fácil passar batido por isso. É bem fácil você repassar pela sua história mil vezes tentando descobrir o que está errado e ficar MAS ESTÁ TUDO COMO O PLANEJADO e descobrir que na verdade é um detalhe, de um personagem, que tá prendendo tudo. Como eu disse: mecanismos do cérebro (eu espero) (sério mesmo, espero que seja um mecanismo do meu cérebro).

Aí, gente, pra mim é trabalho braçal mesmo. Mesmo sem querer, tenho que sentar e examinar todos os aspectos da história, da narrativa, do worldbuilding,até descobrir o que está errado. Geralmente, tenho um insight de onde mais ou menos está o problema, mas foi só com a experiência de sentar e enfrentar o problema que descobri como funciono. Tem vezes que é frustrante, mas quando você chega no momento EUREKA!!! é TÃO BOM, EXCELENTE, 10/10. RECOMENDO!!!

*TALVEZ EU ESTEJA FALANDO BESTEIRA AQUI JÁ QUE NUNCA FIZ TECIDOS NA VIDA.
Bonus: Uma lista de coisas que fiz enquanto estava tentando descobrir o que tinha de errado no meu projeto atual
  • Decorei toda a trilha sonora de Moana no original E fiz coreografias;
  • Comecei a ver Voyager e MEU DEUS QUE MARAVILHA VEJAM JÁ TÁ NA NETFLIX;
  • Também comecei a ver The OA, shippem certo;
  • Enchi o meu caderno do projeto de Starships de fichas de personagens, de desenhos de carinhas tristes, de entradas com “não escrevi nada hoje, amanhã deve ser melhor”, de uma ideia nova envolvendo inventores, de cenas em POV do David, fiz aesthetics dos personagens e descobri que sou péssima nisso, enchi um board do pinterest de referências;
  • Fiz uma lista mental de recomendações pro desafio Ler Além, da Revista Pólem, do NUPE e da Valkírias;
  • Não li absolutamente nada.

 

1 Comment

  1. EU QUERO FAZER AESTHETIC DE STARSHIPS ME DÊ MATERIAL.

    Eu pulava de projeto pra projeto mas agora aprendi que eu tenho que FORÇAR a continuar, nem que seja apenas olhando pra tela em branco, pq do contrário eu começo a pensar em novas histórias e nunca mais acho o erro da atual. Tipo agora que estou pensamento MEU DEUS PQ X NÃO ME OUVEEE. Aí eu descobri que eu tava tentando enfiar uma cena no pov dele porém a cena é no pov do irmão dele e ele só estava não querendo roubar o lugar do irmão.

    (Essa comparação com tecidos é muito boa mesmo eu não sabendo costurar!!!!!!!)

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