Eu estou indo para Goiânia visitar a Dayse e estou nos últimos dois capítulos da revisão, então o diário de hoje é bem preguiçoso. Eu comecei um texto interessante sobre feminismo, status quo e fantasia, mas não consegui terminar ainda. Felizmente, encontrei uma discussão bem interessante do Neil Gaiman e do Kazuo Ishiguro sobre o que a gente chamaria de Alta Literatura aqui no Brasil e Literatura de Gênero (ou especulativa).

Contextualizando vocês: o Kazuo Ishiguro é o autor de Never Let me Go, que tem elementos pesados de ficção científica, e, recentemente, lançou Buried Giant, um livro que tem vários elementos de fantasia. Isso confundiu os críticos literários porque COMO UMA FANTASIA É ALTA LITERATURA? Também houve um desentendimento porque a comunidade de escritores de Fantasia entendeu que o Ishiguro havia discordado de que seu livro era uma fantasia, quando só disse que quando começou a escrever, nem pensou nisso. Enfim, na discussão, eles conversam sobre fronteiras entre gêneros e suas distinções, comentam um pouco sobre o histórico da fantasia, sobre como ela é vista como escapismo, sobre elitismo literário e outras coisas. Eu selecionei (e traduzi!) a parte que achei mais interessante, mas vocês podem ler o textão todo aqui. 

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Kazuo Ishiguro (KI) (…) Mas talvez o estigma contra fantasia envolva muito mais do que o mundo da ficção. Desde o início da revolução industrial, é um pouco verdade que foi permitido às crianças ter um mundo onde a fantasia e a imaginação são aceitáveis, e, de fato, quase desejáveis. Mas quando eles chegam em certa idade, eles precisam se preparar para serem parte da força de trabalho. Então, a sociedade precisa tirar o elemento fantástico da vida da criança, para que eles se transformem em operários, soldados, funcionários de alto-escalão, não importa, porque não é visto como útil para a economia como um todo ter crianças que crescem com esse elemento de fantasia. Você não quer que as pessoas sonhem demais ou imaginem demais: você quer que elas aceitem a realidade cruel do jeito que ela é, e que elas precisam lidar com isso.

Eu não estou sugerindo que estamos sendo necessariamente manipulados por um governo sinistro nem nada: é só o que acontece na sociedade. Os pais naturalmente desencorajam as crianças de continuar com a fantasia em suas vidas depois de certa idade; a escola também. Se transforma em um tabu na sociedade toda.

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