Diário de Escrita #14

A imagem que ilustra o post: um trecho de Anômalos 3 com marcações.

Outra semana em que não tive tempo para fazer o post como eu gostaria, mas percebi que posso continuar falando sobre revisão sem muito esforço. Eu percebi que não falei nada sobre como estruturo mentalmente as edições que preciso fazer na história e acho que é interessante comentar sobre isso porque remete muito à forma como eu construo as histórias.

Eu escrevo em Cenas. Não as divido em capítulos até essa fase da revisão e, quando planejo, faço uma lista com palavras curtas sobre as cenas que pretendo escrever. Por exemplo, em Starships, por enquanto a lista está assim:

  • Dor de Cabeça/Vômito
  • Rovena é badass
  • O plano de Amélia dá errado
  • ENCONTROS INESPERADOS
  • David é  Gentil, Para a Surpresa de Todo Mundo

Para Anômalos 3, o processo foi bem parecido. Acontece que no meio do caminho, às vezes uma cena precisa sair, às vezes outras são acrescentadas. Sempre tenham em mente que cenas servem para dois propósitos, em geral: aprofundar personagem e avançar enredo. Algumas servem só para o primeiro, outras só para o segundo e algumas, maravilhosas, servem para os dois. De qualquer forma, eu sempre escrevo menos do que preciso para contar a história e o primeiro rascunho é praticamente como se fossem os ossos e os órgãos vitais do corpo que é a história. Durante a revisão, eu volto acrescentando carne aqui, uma gordurinha ali, um corte de cabelo bacana e pulmões funcionais.

VAMOS COMEÇAR

Para isso, eu termino o livro. Eu deixo o livro de lado por um tempo e vou fazer outras coisas. E aí, nesse período, começam a pipocar problemas em minha mente como aquelas pop-ups causadas por virus. Estou dirigindo e penso “Ah, não, era melhor se aquela cena fosse assim”. Estou num jantar com amigos e do nada lembro que seria muito bom uma cena de tal jeito para mostrar melhor a dinâmica entre a Sybil, o Andrei e o Leon. Reparo que o ritmo do livro está estranho e percebo que tenho que puxar uma coisa do enredo mais para frente na história. Por aí vai.

Aí eu anoto TUDO que acho que precisa ser modificado antes mesmo de reler e de receber resposta dos leitores betas. Na maior parte das vezes, o que eu acho que precisa ser modificado e arrumo uma solução é o que eles indicam como partes problemáticas. Sobre isso, acho engraçado como, no meu caso, minha intuição geralmente está correta. Eu parto da máxima de que escrevo livros que eu gostaria de ler (e talvez isso seja um problema para algumas pessoas, porque eu adoro coisas com inícios lentos que apresentam a situação de forma que você não entende o que o autor fez até o final do livro, quando você volta para pensar no início e percebe que OH, TAVA TUDO AQUI. Vide Raven Boys) e se, quando eu leio, sinto que ainda não chegou nesse ponto, é óbvio que a história precisa de modificações.

EDITE, BÁRBARA, EDITE

Depois, eu releio o primeiro rascunho, faço mais anotações sobre o que pode ser modificado e cortado, junto tudo e decido o que precisa ser mudado. Daí começo EFETIVAMENTE a fazer mudanças na história, enumerando numa listinha o que precisa ser modificado. Claro que, assim como quando estou escrevendo, as modificações não ficam idênticas às que planejei. Tem vezes que percebo que uma solução é mais simples e dá para ser efetuada adicionando uma frase só no texto, em vez de ter que reescrever ou criar uma cena inteira (esses são dias bem felizes!).

Nessa primeira revisão, me concentro mais em fazer esses ajustes de enredo e em trocar palavras para que as frases fiquem melhores, além de reescrever alguns trechos em que eu digo mais do que mostro. Essa última parte, de reescrever alguns trechos, trocar palavras por outras e deixar o texto mais claro acontecerá pelo menos mais 150 vezes antes da publicação. Outra coisa que faço nesse momento é dividir as cenas em capítulos e normalmente, uma cena = capítulo. Menos durante o clímax, em que elas são bem maiores do que isso.

Faça boas escolhas

Como divido em cenas, acontece de algumas vezes a “câmera” estar focada no lugar errado e eu ter que reescrever uma cena sob outro ângulo. Sua vida é feita de escolhas e, quando você escreve, não é muito diferente. Às vezes você escolheu fazer uma cena que na sua cabeça era maravilhosa, mas quando você releu, viu que ficou ruim e prejudicou o ritmo da história. O que você faz? Muda até acertar. Essa é uma das coisas que são feitas durante a revisão. Outros tipos de mudanças também acontecem: alguns personagens que no planejamento pareciam importantes acabam sendo deixados de escanteio e podem ser cortados, ou então alguma lacuna falta ser preenchida e a melhor forma de fazê-lo é ao adicionar um novo personagem. As necessidades são diversas e você precisa ter filtro  para fazer esses julgamentos.

Acho que o mais importante é ressaltar que PRATICAMENTE NENHUM LIVRO DO UNIVERSO ESTÁ PRONTO NO PRIMEIRO RASCUNHO. Todo livro precisa ser trabalhado em algum nível.  Uma das citações sobre escrita que mais gosto é do Hemmingway, a “Write Drunk, Edit Sober” (Escreva bêbado, edite sóbrio) principalmente porque acho que o processo é assim para todo mundo. Na hora que você faz o seu primeiro rascunho, você está tão envolvido com a história, com os personagens, com as possibilidades que pode não perceber o que não está funcionando. Também há aquele problema das palavras: eu acredito que o autor precisa escolher bem as suas palavras para mostrar o que quer mostrar. E a menos que você escreva 3 palavras muito bem pensadas por dia, você vai ter que voltar em algum momento para mexer nelas. Tem gente que demora cinco anos para escrever um livro porque faz esse processo enquanto escreve, tecendo o texto com cuidado e atenção. Isso é perfeitamente aceitável, porque o importante é que não se pule essa etapa.

Enfim, eu sinto que me empolguei, ahahah. Eu não vou mais prometer nada sobre conteúdo desses posts porque sei lá o que vai acontecer com a minha vida daqui pra frente (talvez tenha greve das universidades, olha que maravilha!), mas com certeza sexta que vem teremos outro texto. ESTOU VOLTANDO AO RITMO NORMAL, PESSOAL!!

Sabia que esse loiro aí de Zoolander é o Alexander Skarsgard????? SABIAM?????????? *aleatória*

Ah, eu também queria perguntar para vocês: tem algo específico que querem saber? Assim, no geral mesmo, porque depois que terminar essa revisão, não tenho muito planejamento do que postar aqui não. Provavelmente será algo relacionado à Starships, mas posso falar de outras coisas se quiserem.

2 Comments

  1. Oi, Bells

    Achei muito diferente você montar os capítulos só depois! Eu também penso em cenas, mas já planejo em qual capítulo cada cena deve acontecer. De resto, acho que somos bem parecidos, MAS, GENTE, OLHA ESSA IMAGEM TODA GRIFADA.

    Humn… Alguma coisa que eu gostaria de saber? Aproveitando que eu meio que estou nesse momento, como você faz para escolher uma história nova para começar a escrever? Você tinha várias ideias e decidiu seguir agora com Starships ou você só tinha ela mesmo e foi em frente? O fato de você ter a Gui como agente influencia na escolha do que escrever? Digo, a agente recomenda algum tipo de história ou veta outras? Gostaria de saber mais sobre a relação autor/agente, acho que daria posts interessantes.

    • barbaram

      May 29, 2015 at 17:50

      Oh, isso dá um post muito bom. Mas de antemão posso te adiantar que é um processo complicado escolher a próxima história a escrever e a Gui ajuda muito nisso. Eu tenho 150 milhões de histórias aqui, em vários estágios de amadurecimento, e umas duas ou três que estão prontas para eu me dedicar só a elas. Conversar com a Gui me dá clareza para saber qual delas é a melhor para o o momento, MAS FAREI UM POST MAIS DETALHADO SOBRE ISSO!!

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