Diário de escrita #15

Eu estou indo para Goiânia visitar a Dayse e estou nos últimos dois capítulos da revisão, então o diário de hoje é bem preguiçoso. Eu comecei um texto interessante sobre feminismo, status quo e fantasia, mas não consegui terminar ainda. Felizmente, encontrei uma discussão bem interessante do Neil Gaiman e do Kazuo Ishiguro sobre o que a gente chamaria de Alta Literatura aqui no Brasil e Literatura de Gênero (ou especulativa).

Contextualizando vocês: o Kazuo Ishiguro é o autor de Never Let me Go, que tem elementos pesados de ficção científica, e, recentemente, lançou Buried Giant, um livro que tem vários elementos de fantasia. Isso confundiu os críticos literários porque COMO UMA FANTASIA É ALTA LITERATURA? Também houve um desentendimento porque a comunidade de escritores de Fantasia entendeu que o Ishiguro havia discordado de que seu livro era uma fantasia, quando só disse que quando começou a escrever, nem pensou nisso. Enfim, na discussão, eles conversam sobre fronteiras entre gêneros e suas distinções, comentam um pouco sobre o histórico da fantasia, sobre como ela é vista como escapismo, sobre elitismo literário e outras coisas. Eu selecionei (e traduzi!) a parte que achei mais interessante, mas vocês podem ler o textão todo aqui. 

***

Kazuo Ishiguro (KI) (…) Mas talvez o estigma contra fantasia envolva muito mais do que o mundo da ficção. Desde o início da revolução industrial, é um pouco verdade que foi permitido às crianças ter um mundo onde a fantasia e a imaginação são aceitáveis, e, de fato, quase desejáveis. Mas quando eles chegam em certa idade, eles precisam se preparar para serem parte da força de trabalho. Então, a sociedade precisa tirar o elemento fantástico da vida da criança, para que eles se transformem em operários, soldados, funcionários de alto-escalão, não importa, porque não é visto como útil para a economia como um todo ter crianças que crescem com esse elemento de fantasia. Você não quer que as pessoas sonhem demais ou imaginem demais: você quer que elas aceitem a realidade cruel do jeito que ela é, e que elas precisam lidar com isso.

Eu não estou sugerindo que estamos sendo necessariamente manipulados por um governo sinistro nem nada: é só o que acontece na sociedade. Os pais naturalmente desencorajam as crianças de continuar com a fantasia em suas vidas depois de certa idade; a escola também. Se transforma em um tabu na sociedade toda.

Talvez o motivo de estar se afrouxando, e o estigma estar indo embora nos últimos 25 anos, por aí, é que a natureza do capitalismo mudou. Não somos mais operários, funcionários de alto estalão e soldados. E com o advento de pensar fora da caixa, as novas indústrias de tecnologia que lideraram nas últimas duas décadas parecem exigir algum tipo de imaginação. Talvez as pessoas estão começando a achar que há algum uso econômico em realmente permitir a indulgência de algo que antes era percebido como fantasia infantil. Eu pareço um professor de sociologia dos anos 70, mas eu sinto que faz sentido.

Neil Gaiman (NG) Sabe, eu fui à China em 2007, na primeira convenção de ficção científica aprovada pelo partido, financiada pelo Estado. Eles trouxeram algumas pessoas do ocidente e eu fui um deles, e conversei com vários autores de ficção científica na china que me disseram como o gênero não era só menosprezado, mas era considerado suspeito e contra-revolucionário, porque você podia escrever uma história em um grande formigueiro no futuro, onde as pessoas estão se transformando em formigas, mas ninguém tinha muita certeza: isso é um comentário sobre o Estado? Dessa forma, era muito, muito esperto.

Eu puxei um dos organizadores do Partido para conversar e disse: “Ok. Por que é que agora, em 2007, vocês estão financiando uma convenção de ficção científica?”. E sua resposta foi que o Partido estava preocupado porque a China, historicamente, foi uma cultura de mágica e invenção radical, mas agora, eles não estavam inventando nada. E eles foram para a América e entrevistaram pessoas no Google e na Apple e na Microsoft, e conversaram com os inventores, e descobriram que em cada caso, quando jovens, eles haviam livro ficção científica. Foi por isso que os chineses decidiram que agora iriam aprovar oficialmente ficção científica e fantasia.

KI Isso é muito interessante.

NG O que demonstra sua teoria exatamente. É sobre a economia e a força de trabalho de uma sociedade em que o ato de imaginar é tão importante quanto o de labutar. Nós temos máquinas para fazer o último, mas não temos máquinas que podem imaginar. (Nota: AINDA)

***

Tem um velho “ditado” em economia que a explicação de tudo é econômica. Não concordo 100% com isso, mas achei a análise fascinante, principalmente a anedota do Gaiman sobre a China. Estou adicionando aqui não só porque é um ponto de vista interessante para quem lê/escreve ficção especulativa, mas porque eu acho que é um lembrete importante para escritores em geral de que o que escrevemos não está isolado do mundo e da sociedade, e que o que produzimos está inserido num contexto sócio-econômico específico e influenciam os leitores, nem que seja a estimular a sua criatividade.

Puxando a reflexão para outro lado, esses dias me deparei com um post bem antigo da minha musa, a Kate Elliott, sobre Worldbuilding e o status quo. Ele pode ser lido aqui (em inglês também, me desculpem! Eu vou ver se arrumo uma forma de traduzir os textos que sugiro aqui). Ele me lembrou quase imediatamente da minha metáfora favorita para Ficção Especulativa: você espelha e alonga. E aí distorce o que quer que as pessoas questionem. Mas enfim, isso é conversa para outro dia.

SEXTA QUE VEM

EU JÁ VOU

TER ACABADO

A REVISÃO!!!!!

dor

thisismymmoent3

1 Comment

  1. Escutar essas coisas de escritores renomados sempre me deixa mais leve. Me lembra da importância e do papel das coisas que leio e escrevo. Não é só fantasia. É fantasia e um mundo de influência e responsabilidade junto, assim como qualquer outro gênero.
    Recentemente li um texto do Neil Gaiman sobre isso onde ele inclusive comenta esse mesmo caso da China. Não sei se você chegou a ver
    https://indexadora.wordpress.com/2013/10/17/neil-gaiman-por-que-nosso-futuro-depende-de-bibliotecas-de-leitura-e-de-sonhar-acordado/
    É bem interessante.
    E boa sorte com a revisão )o)

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