**Esse texto foi escrito dia 29 de Abril e não editei para Julho, mas a polêmica dos Livros de Colorir continuam aí. Em Maio, eles venderam mais de 200 mil exemplares no país e é um fenômeno que está acontecendo no mundo inteiro, não só aqui. Enfim, introdução a parte, acho que é um reflexão interessante!**

Eu comecei a ler A Arte de Pedir, da Amanda Palmer, e desde então estou refletindo muito sobre esse negócio que é fazer arte, o relacionamento do criador com quem consome suas criações e outras coisas mais. Eu admiro muito a Amanda, apesar de algumas coisas problemáticas que ela já fez na vida, principalmente pelo seu ímpeto de tentar inovar e sua confiança aparentemente ilimitada em quem consome a arte que ela faz. O livro explora isso de várias formas, mas não é por isso que estou fazendo esse texto.

Por outro lado, durante essa semana tiveram um milhão de polêmicas sobre aqueles livrinhos de colorir para adultos. Eles são a nova febre, enchendo as listas de mais vendidos de não-ficção e aparentemente um ótimo presente de dia das mães. São uma continuação natural, na minha opinião, da onda que começou com Destrua esse diário e afins. A questão toda é que: são livros de colorir. Sabe, aquilo que sempre esteve disponível na sessão infantil, e agora está em todas as prateleiras com um selo antiestresse. Isso gera muita discussão: tem gente que não acha que é livro, tem gente que acha besta, tem muita gente achando muita coisa.

E pensando sobre isso, acabei me deparando com um devaneio que começa com a pergunta:

O que é arte?

Apertem o cinto que esse post vai ser longo.

Eu tive aula de artes na escola até o terceiro ano por ser obrigatório no vestibular daqui e aprendi sobre movimentos artísticos, composição, fiz trabalhos impressionistas e pontilhistas, vi um monte de intervenção estranha. Mas o primeiro conteúdo de todos começou por aí, com a pergunta incômoda de O que diabos é artes? Aí a gente ganha uma definição que não pode ser mais genérica:

A arte é uma forma de o ser humano expressar suas emoções, sua história e sua cultura através de alguns valores estéticos, como beleza, harmonia, equilíbrio.

Daqui

Sentada na minha cadeira lá em 2005 eu ri e pensei que arte pode ser qualquer coisa então, professora. É uma daquelas coisas que não conseguimos definir direito, então usamos categorizações para tentar definir – as funções. Tinha uma lista imensa de funções da arte, da estética à catártica (ou isso era em literatura?), que eu decorei para fazer o vestibular e que fiz inúmeros exercícios vendo um vaso grego e dizendo ISSO É FUNÇÃO UTILITÁRIA E ESTÉTICA.

Passamos os próximos três anos cobrindo o que dava para cobrir: arte greco-romana, arte chinesa, arte neoclássica, arte barroca, arte rococó, arte impressionista, pontilhista, surrealista, modernista… No final, estudamos um período em que a casa bem construída do o que é arte foi destruída e de gente se masturbando em galerias de arte à gente que fazia pintura com o próprio sangue, vimos de tudo.

Aí eu voltei para o começo. O que é arte? Como é que isso aí pode ser arte? PROFESSORA, PELO AMOR DE DEUS, É SÓ UMA PESSOA PARADA NUMA SALA, COMO É ARTE? NEM É BONITO.

Se passaram alguns anos desde então e eu só parei para refletir sobre isso novamente agora. E a minha conclusão foi mais ou menos a mesma de dez anos atrás:

Arte pode ser qualquer coisa*.

Mas acho que, principalmente, é uma forma de se comunicar, de se conectar com o outro. Nós escrevemos/desenhamos/pintamos/fazemos vídeos para atingir outras pessoas, para extravasar os nossos sentimentos e questionamentos para os outros. Às vezes porque você não aguenta aquilo sozinho, às vezes porque você precisa de ajuda para responder algo e lança a questão na sua arte. Pode ser porque você acha aquilo super legal e gostaria que alguém parecido com você pudesse se divertir. Pode ser porque quer que alguém em algum lugar saiba que você existe.

Não acho que seja um processo consciente na maior parte das vezes. Vejo a criação como uma energia, uma inquietação que não te deixa ficar parado e sussurra no seu ouvido para que você produza, para que trabalhe e extravase aquilo que sente. Não importa a forma, o que importa é se livrar daquilo. E, inevitavelmente, o que você fizer será produto daquilo que te corrói por dentro.

Arte é um presente do criador para quem a recebe. É extremamente pessoal, por isso muitas pessoas tem vergonha de mostrar o que criaram para outras. Puxando a Amanda Palmer e trazendo o Neil Gaiman para a conversa também, em uma das entrevistas do Gaiman, ele disse que a Palmer considera que fazer arte consiste em jogar todas as suas vivências num liquidificador e bater. Alguns artistas batem pouco e tem obras mais biográficas, mais claramente baseadas em suas experiências. Outros batem tanto que aquilo vira algo que parece completamente diferente, mas que se baseou na vivência do autor do mesmo jeito.

E é aqui que volto para os livros de colorir: todo mundo tem a necessidade de se comunicar de alguma forma. Todo mundo tem uma inquietação, um questionamento, um sentimento que precisa extravasar. Todo mundo pode fazer arte.

Eu nunca conheci uma criança que não fosse criativa. Por mais pragmática que ela seja, sempre está inventando histórias e se divertindo com qualquer coisa que veja. Em que momento até a vida adulta as pessoas perdem isso? Por que algumas perdem essa característica e outras não? Eu não estou aqui para filosofar sobre os motivos disso, mas para lembrar que todos nós temos esse potencial, sabe. Essa criatividade e capacidade de ver o mundo com “olhos de criança” não vai embora, a gente só ignora ela, seja por vergonha, seja por uma sociedade que menospreza e considera inferior certa faixa etária, seja por algum outro motivo.

E, para mim, os livros para colorir para adultos só estão me mostrando algo que já sabia: você só precisa de um empurrãozinho para começar a fazer arte.

*Eu tenho uma versão mais elaborada dessa definição que envolve o receptor da arte e o que ele sente, mas vamos falar desse relacionamento de receptor/criador outro dia. Hoje só quero que pensem no lado de quem cria (ou, como a gente diz em economia, o lado da oferta).
**BÔNUS: Citei o Neil Gaiman ali e ele tem um discurso ótimo sobre fazer arte aqui:
Tem um TED Talk que deu origem ao livro da Amanda Palmer também!