Diário de Escrita #18

Hoje vou responder mais uma pergunta feita pelo Felipe. Ju, a sua sobre agente literário é a próxima!

Enfim, o tema de hoje é sobre algo que eu amo em histórias, os personagens! Vamos à pergunta do Felipe:

Sobre personagens dessa vez. Como você faz para criar os seus personagens? Acontece de um jeito natural a caracterização deles ou você tem algum planejamento quanto a isso? Você baseia seus personagens em pessoas reais (amigos, familiares, celebridades, etc) ou usa características aleatórias?

Pensei muito sobre essa pergunta desde que ela me foi feita. Não sobre a parte prática e efetiva, porque normalmente entendo essa etapa melhor do que as outras, mas o como, essa etapa de criação antes de colocar tudo no papel. Curiosamente, nessa semana a Maggie Stiefvater recebeu uma pergunta parecida, questionando se ela tinha fichas de personagens, e ela respondeu que não e mais outras coisas fantásticas que me fizeram parar e pensar sobre o meu processo desde o início.

Aí eu descobri: cada personagem começa como um sentimento, como uma pergunta. Depois, eles viram uma voz na minha cabeça pedindo para a história ser contada e sussurrando as informações básicas para que eu me vire com todo o resto. A Sybil começou com um sentimento de estar perdida e não saber para onde ir nem o que fazer agora. Andrei surgiu do sentimento de alguém que finalmente acha que consegue fazer amigos, depois de muito tempo sozinho. Em Starships, a Marina veio dessa sensação doce e amarga de alguém que sai de casa para fazer algo que quer muito, morre de saudades, mas não se arrepende em nenhum momento. David é aquele frio na barriga antes de conhecer alguém novo e toda a ansiedade de ouvir uma torneira pingando no meio da noite e não poder fazer nada para parar.

SENTIMENTOS SENTIMENTOS SENTIMENTOS

Do sentimento, eles vão evoluindo. Vou descobrindo detalhes, histórias pregressas, penso em como encaixá-los no contexto da história e do worldbuilding e conheço detalhes de personalidade. Eu joguei muito RPG na minha vida, então meu caminho natural é fazer uma ficha para estruturar e construir melhor os personagens. Normalmente ela contém várias informações da vida do personagem antes da história começar, informações dos pais e dos irmãos (se for o caso), incluindo história dos pais se eles não forem uma parte ativa da história. Adiciono uma pequena descrição de manias, o aniversário (porque, sim, eu me interesso por signos e acho legal saber esses detalhes. A propósito, a Sybil é bem da virada entre Peixes e Aquário, porque esse é o tipo de piada que eu faço), as amizades e tudo o mais.

A ficha é uma base. Ela me dá informações para que eu possa esquematizar em minha cabeça o background e o contexto familiar e social dos personagens, mas raramente coloco detalhes de personalidade lá. Na hora de escrever, tenho planos para eles que geralmente funcionam, porém alguns personagens são meio rebeldes e percebo na hora que aquilo não condiz com o que ele faria. Esse é um dos fatores que acabam desviando a história do planejamento, se manter verdadeira ao que os personagens são. Eu acho que sem essa parte mais orgânica e instintiva, os personagens parecem menos verdadeiros?

“ELA NÃO ESTÁ CHORANDO DO MESMO JEITO QUE NÃO TÔ GRITANDO”

E eu tenho uma regra: nunca nomear personagens com nomes de pessoas muito próximas à mim. E até agora nunca baseei um personagem em alguém que conheço, mas acabo juntando várias características de pessoas que conheço e minhas para formar os personagens, às vezes sem nem reparar. Eu acho que é natural você roubar da sua realidade para construir a sua ficção, mas sempre misturo tudo muito bem para que ninguém diga oLHA É FULANO. (Aqui uma observação engraçada: eu geralmente conheço pessoas com características parecidas com alguns personagens meus alguns meses depois de escrevê-los e algumas pessoas acham que os personagens são baseados nelas, como um amigo meu que todo mundo associa com o Leon.)

Acho que outro ponto interessante sobre personagens é que às vezes você pensa em alguém que vai encaixar na história muito bem, até chega a escrever, mas depois percebe que o personagem está ali só para tumultuar. Aí é o momento triste de cortá-lo da sua história. Isso já aconteceu com Starships várias vezes, porque a história surgiu com uns 10 personagens principais e eu fui cortando, misturando histórias com os outros, até termos bem menos. Não digo a quantidade porque ainda não sei, ainda não comecei a escrever, mas essas mutações fazem parte do processo de tornar a história mais clara e menos confusa. Esse é um dos processos que não envolve efetivamente sentar e escrever palavras, mas sim pensar e achar caminhos para narrar de forma mais efetiva o que você quer contar.

O PODER DA LITERATURA

Eu acho que sobre personagem é isso. Para mim, envolve uma parte emocional e instintiva e uma mais racional, para organizar informações. Considero os personagens uma das partes mais importantes da história e acho que a conexão do leitor com eles começa com a minha conexão com eles. Se não parecem verdadeiros nem para mim, não vão parecer para os outros. Mas acho que isso é conversa para outro dia!

Ah, todas as imagens e gifs são de Sense8, a série nova da Netflix que é maravilhosa e tem mil personagens e obviamente wolfie e kala viraram sybil e andrei na minha mente.

An-Wolfie!

3 Comments

  1. Jully Guedes

    June 26, 2015 at 15:42

    Eu não planejo nada dos meus personagens. As ideias simplesmente aparecem em minha mente, quando eu to dormindo, quando eu estou comendo, quando eu estou tomando um banho.

    • barbaram

      June 26, 2015 at 16:06

      Então, acho que você não faz um planejamento sistemático como o meu, mas há algum nível de planejamento para agregar essas diferentes ideias que você tem durante o dia ou o personagem se torna só uma bagunça de conceitos que não tem liga. Essa parte de organizar tudo mentalmente é muito importante para conseguir escrever (acho que vou falar mais um pouco sobre isso depois, ahahah).

  2. ADORO LER SOBRE PERSONAGENS!

    E eu acho interessante que vários autores usam racionalizações diferentes para descrever de onde eles vem, mas no fundo parece que são só várias formas para descrever um mesmo fenômeno extraordinário.

    Do meu ponto de vista, personagens nascem de impressões que eu tenho sobre o mundo. Tipo quando você começa a conversar com uma pessoa e daí você percebe “nossa, ela é super evasiva quando o assunto é a faculdade!” ou “puxa, ele fala de um jeito meio cantado que é bem bonito” ou “nossa, a mãe dela é sempre muito dura com ela”. Impressões podem ser sentimentos, características, contextos. Podem ser basicamente qualquer coisa. Ter impressões faz parte da rotina das interações humanas (e não humanas também, porque pode acontecer com personagens de livros, filmes, jogos, etc) e por isso que é tão fácil surgirem personagens novos na minha cabeça.

    Daí eu pego essas impressões que eu gosto e completo as lacunas, geralmente com um pouquinho de mim mesmo. E daí não tem volta. Ganhou vida, começa a falar e pedir atenção o tempo todo. Por isso que personagens são todos partes de nós, mas ao mesmo tempo são impressões que a gente tem do mundo ao nosso redor.

    Já que você pede perguntas, tenho uma meio especifica: o processo de escrita já te ajudou em alguma fase da vida, emocional ou psicologicamente? Tenho para mim que escrita é uma forma de auto-terapia, e muitas² vezes descobri que escrever determinada história foi como ensinar me ensinar uma lição que eu precisava muito aprender. Queria saber se você tem dessas coisas também ?!

Leave a Reply

Your email address will not be published.

*


© 2017

Theme by Anders NorenUp ↑