Diário de Escrita #25

Sabe aquela brincadeira de “eu tenho uma boa notícia e uma ruim, qual você quer primeiro?”. Então, hoje eu recebi uma notícia boa e uma ruim, qual vocês querem primeiro?

A boa é que o ebook de A Retomada da União já está disponível em todas as lojas!!!!!

A ruim é que eu descobri isso porque JÁ piratearam ele. Pois é.

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DESCRIÇÃO FIEL DO MEU SENTIMENTO QUANDO SOUBE

Não é o primeiro livro meu que é pirateado não, mas é a primeira vez que falo publicamente sobre isso. Olha, na primeira vez, eu pensei “não vou comentar para as pessoas não irem procurar, vou fazer outras coisas para tentar promover os livros!”, até porque eu tenho umas visões complicadas sobre isso. Mas dessa vez, eu fiquei tão, tão puta que não dá pra ficar calada.

Meu objetivo aqui não é pegar briga, não é discutir, não é crucificar ninguém. Eu só quero desabafar um pouco e contar para vocês como é que as coisas funcionam e PORQUÊ, com o modelo que temos hoje, inseridos no sistema capitalista, piratear livros é nocivo e ruim para os autores. Eu não quero saber os motivos de vocês para piratearem, a vida é de vocês e vocês fazem o que querem. Mas acho que é importante que vocês saibam as consequências do que fazem para poderem tomar decisões com mais informações.

Sempre me perguntam quanto tempo eu demoro para escrever e sempre falo do processo de sentar e colocar as palavras no papel. Já disse algumas vezes que faço o processo mental de construir a história todo antes e só sento quando ela está pronta, então não consigo precisar exatamente quanto tempo demora essa etapa mais subjetiva. Mas a prática eu sei: demoro mais ou menos 3 meses para escrever um livro, dois para revisar, trabalhando todos os dias por algumas horas – suponha umas 570 horas no total. Trabalhando oito horas por dia, 5 dias por semana, seriam um pouco mais de 14 semanas ou três meses de trabalho.

Aí vem a coisa engraçada: em que outra profissão, uma que não uma que envolve ~arte~, alguém acharia que é OK você deixar de receber por três meses de trabalho? Em que outra profissão você vende a sua mercadoria e as pessoas acham que é aceitável pegar o seu trabalho e distribuir de graça sem a sua autorização?

Mas tudo bem, faz parte do jogo, tem outros troféu, Bárbara. Tudo bem que você ficou exausta, que você se desdobra em três pra fazer a jornada faculdade-estágio-escrita, você quer uma estrelinha por isso? Quer um prêmio? Não, não quero, muito obrigada, vou continuar a fazer o que eu estava fazendo.

O problema não é eu parar de escrever, porque as chances disso acontecerem são mínimas. Se eu me desdobro em três, é porque eu quero. Porque eu escolhi isso. Eu podia largar tudo e gastar todo esse tempo fazendo, sei lá, arte para vender na praia e não passar por isso, sabe. São as minhas escolhas. Mas o problema é as vendas ficarem tão pequenas que as livrarias não vão querer mais meus livros. O problema é não me publicarem mais. O problema é não publicarem mais nenhum autor nacional no mesmo gênero que eu, porque o meu livro não deu o retorno esperado. O problema é não publicar nenhum autor brasileiro porque eles não dão o mesmo retorno que os americanos.

O problema não sou eu – é o mercado. Se hoje a gente tá aí, saindo de uma bienal em que as maiores estrelas foram autores nacionais, é porque a gente tá mostrando resultado. Mas e se isso parar de acontecer? Como vai ficar a ~cena de autores nacionais~?

Não é só isso, sabe. O autor fica com 10% apenas do preço de capa (então, por exemplo, a cada AIDD vendido, eu ganho 3,40), as livrarias e distribuidoras com mais ou menos 50% e a editora, com o que sobra. Mas, nessa brincadeira, quem arca com todo o risco é a editora. Eles fazem todo o trabalho de preparação de textos, eles arcam com os custos de impressão, incorrem com o maior risco ao apostar numa obra e colocá-la no mercado, apostam em marketing, etc. A editora, que tem dezenas de pessoas trabalhando lá, sejam fixos ou freelances.

Quando você pirateia, você não tá ferindo só o autor não, sabe. Você tá prejudicando toda uma cadeia produtiva que tem pessoas que dependem da venda daquele produto, desde o preparador de texto até o livreiro que te vende o livro. E se você quer ser escritor e pirateia livros: parabéns! Vocês está aumentando as suas chances de NÃO ser publicado!!! É um efeito em cadeia, sabe. Um castelo de cartas, derrubou uma carta, derrubou o castelo.

Agora você está pensando “MAS É SÓ UM LIVRO SÓ, NÃO VAI ACABAR O MERCADO”.

Imagina então 1000 pessoas pensando “é só UM livro”.

Imagina que se pelo menos metade dessas pessoas comprasse o livro, ele teria uma venda razoável pelos parâmetros do mercado brasileiro.

Você também pode estar dizendo “MAS EU SÓ BAIXO BESTSELLERS, NÃO VAI FAZER DIFERENÇA”.
Hnm, deixa te contar uma coisa: os bestsellers são o tipo de livro que dão o maior retorno para as editoras, eles que permitem que possam apostar em livros desconhecidos. Então, indiretamente, faz diferença para aquela pessoa que tá começando, que quer entrar no mercado.

Também tem aquele, né, “SÓ FAÇO PIRATARIA DE LIVRO AMERICANO”, como se a pirataria não fosse nociva lá também, como se o mercado lá só tivesse bestseller. Uma das autoras que eu gosto muito, a Victoria Scwhab, teve a série dela cancelada no meio porque não vendeu o suficiente. Isso é extremamente comum lá. Se o mercado de lá é diferente em alguma coisa, é na crueldade.

Enfim, eu entendo ser adolescente e não ter dinheiro para comprar livros. Apesar de ter tido muita sorte com meus pais e eles me darem livros com frequência, nem sempre dava para acompanhar uma série ou comprar tudo o que eu queria ler. A gente solucionava esse problema com facilidade: tínhamos um grupo de amigas e cada uma comprava uma parte da série. Aí emprestávamos os livros entre nós e, voi là, todo mundo conseguia ler. Eu também li praticamente todos os livros da biblioteca da minha escola, que, felizmente, era muito boa. Existem outras alternativas à tudo. Eu sei que nosso sistema de bibliotecas não é do ideal, mas ele existe. Você pode ver a mais próxima de você aqui: http://bibliotecas.cultura.gov.br/ (segundo esse mapa, tem três bibliotecas no meio do atlântico também, ahaha)

Daí você pergunta “MAS OLHA SÓ EU NÃO TO PAGANDO PRA LER DESSA FORMA”: é, não mesmo!!!!!! Mas alguém comprou o livro, não tá ganhando em cima de você com publicidade como esses sites de download de livros fazem e, no caso de bibliotecas, quanto mais você pega o livro, ele fica na cabeça do bibliotecário e de outros usuários e é bom. CONFIA EM MIM QUE É BOM.

Enfim, sempre tem outra solução para seja lá qual for o seu motivo para fazer pirataria. Mas se vocês não quiserem pensar em nada disso, se vão continuar fazendo pirataria, qualé dessa menina, então pelo menos ouçam meu pedido: se vocês gostarem dos livros que piratearam, tentem comprar assim que for possível. Isso ajuda os autores e a editora a apostar em novos livros como aquele.

5 Comments

  1. Belo post!
    O processo todo é indiscutivelmente árduo. Todo o trabalho de meses, quiçá anos, é posto à prova em pouco tempo após o lançamento.
    Ter de lidar com mais desafios externos, fora todas as adversidades já embutidas no pacote de quem quer entrar neste jogo, desestimula todo o processo. Concordo em gênero, número e grau com você.

    Lindas palavras, parabéns!

  2. Nossa Bárbara deve ter sido muito tenso ver que infelizmente isso aconteceu! É uma pena de verdade, por que dá para ver todo o trabalho que você teve ao longo desses anos de Trilogia Anômalos, e todo o trabalho em geral. Eu tenho uma coisa que sei lá, me impede de ler livros em formato digital, o que de uma forma muito valida ajuda os autores e as editoras.
    Eu tava vendo outro dia que isso também aconteceu com a Bianca Briones, que até uma menina postou o livro dizendo que era dela mudando apenas uma palavra do titulo e achando que tudo bem! Imagino o que deve ser a consciência dessa pessoa…
    É muito triste,mas vou estar torcendo para você e para que isso mude daqui pra frente … E vou tentar ajudar da melhor forma possível, vou continuar falando do meu amor pela sua escrita até para o cachorro da vizinha haha Beijos

  3. Cleber Oliveira

    October 18, 2015 at 15:33

    Concordo. Antigamente quando eu era menor baixava muito mas hoje em dia eu compro na livraria. Eu sou adolescente então quando não dá eu leio na própria livraria ( acho que todas tem um espaço) e vou até a metade, então no mês seguinte vou na livraria e compro e término. Ótimo texto, e mal posso esperar para a Retomada da União chegar aqui em casa ☺

  4. Ressuscitando posts antigos, essa sou eu. Mas é que só fiquei sabendo desse agora. 😀

    Então, concordo com o que foi dito. Eu sempre tentei valorizar os artistas que curto. Comprava CDs, DVDs e livros. Parei com os 2 primeiros porque ocupam MUITO espaço e eu acho streaming mais prático. Livros, eu ainda compro, mas também tenho um eReader, que adquiri pela facilidade de ter MUITOS livros numa aparelhinho e pelos livros em inglês, que lia bastante e eram mais complicados de passar pra frente depois. Mas compro eBooks. Direto vejo piadinhas sobre isso (“mas pra que comprar se você pode baixar de graça???”), só que não acho justo.

    Eu li um livro MARAVILHOSO uns anos atrás, o primeiro de uma trilogia, e nunca soube como a história continua porque não lançaram por aqui. Pode até não ter sido pela pirataria, talvez o livro não tenha feito sucesso mesmo, mas né fica a dúvida…

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