Diário de Escrita #7

Como disse no post anterior,  os próximos dois posts vão ser sobre o início do processo de escrita. A maior parte das ideias que tenho caem dentro do guarda-chuva da ficção especulativa, em um dos subgêneros da fantasia ou da ficção científica. O meu projeto atual é ficção científica (de novo), mas mesmo que fosse fantasia eu teria que fazer a mesma coisa: construir um mundo novo.

É o que a gente chama de worldbuilding, porque amamos pegar emprestados termos do inglês que são sucintos e descrevem com facilidade o processo meio estranho de criar o cenário em que sua história vai se passar. Quando eu uso cenário assim parece que é só “ah, vai se passar na idade média e ter magia!” ou “tem espaçonaves e alienígenas!”, mas vai bem além disso. Você precisa criar um mundo tridimensional que se adeque à sua história, que pareça real enquanto os seus personagens transitam por ele. Não precisa explicar tudo no livro — gastar páginas e páginas e páginas dissertando sobre o que aconteceu com a tecnologia até chegar no milênio seguinte detalhando todos os policarbonatos que foram utilizados — mas você precisa saber de detalhes (e como usá-los) se quiser tornar sua história mais real.

UM MUNDO IDEAL FEITO SÓ PRA POR VOCÊ

Aí, pesquisa e leitura são fundamentais. Você sabia que já existem alguns trabalhos teóricos prevendo o uso de matéria escura como combustível para viagens espaciais entre galáxias? Sabia que a primeira pessoa a provar de forma robusta que a matéria escura existe foi uma mulher? Sabia que, atá agora, a Terra é o único planeta que tem oceano na superfície e não embaixo dela? Eu descobri essas e outras coisas enquanto pesquisava para o worldbuilding do livro que estou escrevendo. Alguma dessas coisas vai aparecer diretamente no texto? Acho improvável, mas o conhecimento delas me deixa mais segura para descrever problemas que podem acontecer nas naves e imaginar uma tecnologia que se adeque à história que quero contar.

Tem muito autor que se atém aos aspectos mecânicos do mundo, desde o funcionamento das espaçonaves ou a tecnologia que as pessoas usam ao sistema de magia, e esquecem do fundamental no worldbuilding, na minha opinião: as pessoas. Você está construindo aquele mundo para que pessoas o habitem, então você precisa se perguntar como aquela sociedade é formada. Qual a principal dificuldade deles? Qual a motivação que levou eles a terem essa tecnologia, como esse sistema de magia moldou as classes sociais?  Se há escassez de comida, por quê? Como é que isso afeta a vida das pessoas?

Cada autor tem uma abordagem diferente de como fazer esse mundo. Muita gente tem essa ideia de que você precisa construir um idioma novo que nem o Tolkien pra ter um mundo novo ou inventar toda uma nova tecnologia que mais parece magia do que outra coisa, mas não tem regra específica, sabe. Dependendo do livro, você vai construindo o mundo conforme for escrevendo. Por exemplo, uma fantasia urbana com seres sobrenaturais convivendo conosco já parte de uma base pré-definida — o nosso mundo — e só adiciona outros elementos. Às vezes você achou que só ia usar vampiros e lobisomens e, PÁ, no meio do livro decide colocar um saci-pererê ou um shinigami ou sei lá o quê e aí você adiciona, bate a cabeça na mesa algumas vezes, continua escrevendo com a certeza de que tá fazendo besteira e na revisão você arruma tudo, depois de pesquisar sobre a criatura que surgiu na sua história.

Por que é que você tem porcos-espinhos que comem cadáveres na sua história?

Também acho que é meio impossível fazer todo o worldbuilding de uma vez, porque algumas nuances você só percebe enquanto desenvolve a história. Mas tenho um básico que preciso saber para começar, e geralmente seguem as seguintes perguntas:

1) Qual é a história que você quer contar? Que tipo de Cenário você precisa?

2) Ele é baseado em algum período histórico ou em alguma tecnologia já existente?

3) Existem mais regiões além do lugar onde a história se passa?

4) Essas pessoas do seu mundo, qual é a principal necessidade delas? O que as move, em um todo? Qual a maior crença?  Isso serve para todos os lugares, não só onde a sua história se passa.

5) Qual a principal atividade econômica? Quais profissões as pessoas podem ter? Que tipo de educação é a mais comum? Quais limitações esse mundo tem? Que tipos de conflitos podem surgir disso?

6) Quem manda no seu mundo? Que tipo de governo ele tem? Que influência isso tem na vida das pessoas? Quais as classes sociais?

7) Que tecnologia/sistema de magia/etc é predominante no seu mundo? Há algum contraponto à ela? Como funciona?

Para Starships, meu processo de worldbuilding foi bem mais pesado do que de anômalos. Em Anômalos, eu precisava saber só até a pergunta seis e me concentrar mais nas relações sociais do que qualquer outra coisa. Em Starships, a história não envolve a sociedade como um todo, mas só um pequeno grupo de pessoas confinado em um lugar no espaço. Os desafios são outros, desde tecnologia a possíveis problemas de saúde que podem existir, passando por existem aliens ou não? e o que eu vou fazer com a relatividade??????. Todas as escolhas que fizer agora não estão escritas em pedra e não serão mandamentos, mas vão ajudar bastante quando eu começar a escrever.

AGORA QUE SEI TUDO SOBRE O PERÍODO HEIAN POSSO ESCREVER MEU LIVRO

Com todo o trabalho que dá fazer o worldbuilding, é bem compreensível que alguns autores adorem exibir a pesquisa que fizeram e o trabalho que tiveram em TODOS OS MOMENTOS, com parágrafos imensos de descrições de coisas aleatórias e estranhas que não necessariamente avançam o plot. Eu particularmente odeio esses infodumps e acho que fazem com que o texto perca em fluidez e em ritmo, mas tem gente que adora e se sente mais conectado com a história assim. De qualquer forma, o importante é que, para escrever, você precisa saber muito mais do que vai efetivamente colocar no papel para caminhar com segurança.

E essa última dica não serve só para ficção especulativa, serve para qualquer tipo de ficção.

Caso você leia em inglês, tem vários posts com dicas para fazer um mundo interessante aqui, aqui e aqui.

Em português, tem vários livrinhos da editora Draco que podem te ajudar na pesquisa, como esse, esse ou esse.

7 Comments

  1. Eu acho que deve dá um puta trabalho p vcs escreverem livros que necessitam da construção de todo um pano de fundo por trás. Para construir o meu projeto de livro, eu só precisei me envolver com meus personagens e criar uma boa história para eles, e mesmo assim tem horas que eu penso que não sou boa o suficiente para construir algo assim. Imagina ter que construir um universo totalmente novo?
    Ps: Seus livros estão disponíveis em ebook?

  2. O gif do Lego sou eu ao descobrir o título provisório do próximo livro.

  3. Adoro esse trabalho de worldbuilding, são tantas possibilidades, tantos universos possíveis… Tanto que sempre me perco no meio da construção do mundo e de tantas possibilidades e não sigo adiante com a historia. O mundo tá lá pronto pra uma grande guerra ou um senhor do mal, mas não consigo encaixar os personagens…
    Na sua opinião, pra um escritor iniciante, melhor (e mais fácil) começar com um único livro ou já partir pra trilogias e sagas?

    • barbaram

      March 19, 2015 at 20:01

      Oi, Fernanda. Eu sinceramente acho que é bem mais fácil começar com um livro único, porque é um exercício em escrever algo com início, meio e fim. Uma saga tem muitos pontos em aberto, muitos elementos para equilibrar e pode ser difícil para um autor sem muita experiência fazer isso. Mesmo se sua ideia for uma trilogia ou mais livros, pense em um primeiro livro fechado em si mesmo, com poucas pontas soltas que podem ou não ser resolvidas. Acho que é isso 😀

      • Nhoim! Obrigada pela resposta!
        Realmente, você tem razão… Já tenho dificuldades em fechar um livro, que dirá uma trilogia ou uma saga… hahaha
        Meu período de maior produtividade foi quando eu escrevia contos, foi bom pra praticar. Agora, que quero tentar escrever um livro, nunca gosto dos meus começos e isso me desanima… bleh.
        Mas vou continuar tentando, que uma hora sai! haha
        ps. Estou adorando esses posts! 🙂

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