Diário de escrita #8

É meio que um consenso que existem dois tipos de escritores: os jardineiros e os arquitetos. Ok, você pode já ter ouvido falar em pantsers e planners (gosto de traduzir como cagões e planejadores, mas é ofensivo) ou qualquer variante, mas gosto da metáfora que o Martin usa porque é bem precisa. No final, querem dizer a mesma coisa:

  • Jardineiros ou pantsers criam a história conforme vão escrevendo, descobrindo as reviravoltas e como o enredo vai se desenrolar no processo;
  • Arquitetos ou planners precisam de maior embasamento para escrever, delineando a história com detalhes antes de se sentar e colocar as palavras no papel.
Que caminho seguir!?!?!!?

Que caminho seguir!?!?!!?

Na realidade, nenhum autor é 100% jardineiro nem 100% arquiteto. Como é que você vai sentar para escrever sem nem saber sobre o quê está escrevendo? E como é que você escreve sem dar margem para surpresas e reviravoltas surpreendentes que o seu cérebro só decide liberar na hora que você começa a escrever? Mas, em geral, são boas definições para descrever os diferentes tipos de processo de escrita. Eu diria que “ligo os pontos”, num híbrido de arquiteta e jardineira. Sei os pontos importantes de enredo, faço ficha dos personagens, gasto um tempo ridículo construindo as fundações do meu livro (também conhecido como worldbuilding), mas não consigo delinear cena a cena. Decido o que é essencial para o enredo e deixo a história fluir e me levar até esses pontos.

Mas preciso desses lugares fixos do enredo para desenvolver a história. Se não souber para onde estou indo, me perco e não consigo continuar. É por isso que começar é tão difícil para mim: preciso encontrar o tom certo, descobrir qual das milhares de possibilidades vai se adequar melhor para o que tenho planejado.

Eu terminei o worldbuilding básico e agora estou tomando decisões importantes para o tom do que vou contar. Essa é uma das partes que mais demoram — eu tive essa ideia em 2011 e, desde então, já voltei para ela várias vezes e fiz modificações, mesclei com outras ideias que tinha, cortei personagens e adicionei, modifiquei linhas de enredo que eram fundamentais, dentre outras coisas. Ela está mais ou menos organizada, mas ainda existem algumas pequenas decisões para se tomar.

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Eu, quando percebo que não vou conseguir começar a escrever porque esqueci de delinear um negócio do enredo

O negócio, para mim, é que até colocar o enredo principal no papel, não tenho noção da dimensão do tamanho do que quero contar. Tenho uma tendência horrível de adicionar milhares de personagens (e essa é uma das críticas mais recorrentes de anômalos e estou bem ciente dela) que acabam tendo um papel e uma atenção diminuída. Nesse livro específico, quando escrevi tudo que queria contar, vi que tinha uma penca de personagens, todos com problemas para serem desenvolvidos, além da trama principal que já tem muitos elementos e muitos acontecimentos. Como vou conseguir equilibrar tudo isso em um livro só? Narro em primeira pessoa, como planejo, ou em terceira para conseguir desenvolver melhor todo mundo? Corto personagens? Corto acontecimentos?

MAS EU AMO TANTO ESSA HISTÓRIA PQ TENHO QUE CORTAR COISAS

MAS EU AMO TANTO ESSA HISTÓRIA PORQUE TENHO QUE CORTAR COISAS

Existem outros tipos de escolha além dessa que começam antes de começar a escrever. Como é minha narradora, se eu optar por primeira pessoa? Ela vai estar junto com a ação, ela vai tentar ser neutra ou sempre terá juízos de valor que afetarão o leitor? A Sybil, por exemplo, é uma narradora que é focada em certos aspectos da história, principalmente o relacionamento de poder entre pessoas, não observando muitos detalhes. Faz juízos de valor que às vezes os próprios fatos contradizem, supõe coisas sobre as personalidades dos que estão ao seu redor que não necessariamente são verdadeiras. A Marina, até agora, é diferente da Sybil no sentido de observar tudo. Ela encara o mundo como uma nova aventura, algo a ser explorado, e não quer perder um segundo da sua jornada. É expansiva e barulhenta e não pede desculpas por ocupar o espaço que acha que merece. Essas pequenas escolhas de personalidade afetam a forma como a história vai ser contada e recebida e eu, como autora, gosto de estar ciente delas.

O ponto aqui, para quem é iniciante, é que se você não escrever, se você não testar, você nunca vai saber em qual dos dois você se caracteriza. Eu já tentei escrever sem ter planejamento nenhum e não consigo avançar. Da mesma forma, alguns amigos meus que são “jardineiros” já tentaram planejar e não conseguiram nada. A gente só descobre como funcionamos como escritores através da prática (e é exatamente por isso que 95% dos conselhos de escrita é ESCREVA!).

Espero que a semana que vem traga novidades pra Marina&Seus Amigos, como o fato de EU TER COMEÇADO A ESCREVER. Ugh. Provavelmente vamos conversar sobre um negócio bem importante: o começo.

1 Comment

  1. Concordo plenamente quando VC diz que nem todo mundo eh 100% jardineiro, nem 100% arquiteto. Obviamente um desses dois “grita” mais dentro de nós, mas enfim, acompanhando sempre o seu diário de escrita. Parabéns. Um trabalho muito bom e divertido. Espero ansiosamente pelo terceiro livro dos anômalos e por essa nova história q está por vir dessa sua mente brilhante Barbara. Sucesso!

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